Mobilização da Escola Aarão Lins de Andrade reuniu alunos em uma campanha de conscientização ambiental; projeto desenvolvido ao longo de 2026 prevê continuidade no próximo ano.
Estudantes da Escola Aarão Lins de Andrade foram às ruas de Gravatá, no Agreste de Pernambuco, na quinta-feira (29), para chamar a atenção da população para a poluição do Rio Ipojuca e a importância da preservação dos recursos hídricos. A mobilização reuniu entre 15 e 18 alunos da turma do 3º D, que realizaram panfletagem e exibiram faixas educativas durante a caminhada.
A atividade marcou o encerramento de um projeto escolar planejado e desenvolvido ao longo do ano letivo de 2026. Nas faixas e nos materiais distribuídos, os estudantes utilizaram mensagens como “Preservar hoje, garantir o amanhã!”, “Cuidar do rio é cuidar da vida!” e “A natureza agradece, o futuro depende de nós!”.
Uma das frases centrais da campanha sintetizou a proposta da mobilização: “Não é porque o rio está poluído que eu vou poluir mais.”
Durante o percurso, a recepção dos moradores foi diversa. Parte da população demonstrou apoio e parabenizou a iniciativa, enquanto outros pedestres e comerciantes não interagiram com o grupo. A ação levou às ruas uma discussão sobre a responsabilidade coletiva na preservação dos rios e os impactos do descarte inadequado de resíduos.
Projeto nasceu da observação do cotidiano

A iniciativa foi idealizada no início de 2026 pela professora Rosenilda, responsável pelas disciplinas de Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas na turma do 3º D. O projeto também contou com o apoio da professora auxiliar Flávia e foi desenvolvido ao longo do ano letivo.
A motivação surgiu da observação do descarte inadequado de dejetos e resíduos no leito e nas margens do rio. A partir dessa realidade, a proposta buscou conscientizar a população sobre a importância dos cursos d’água para o equilíbrio ambiental e para a qualidade de vida da comunidade.
O projeto também procurou destacar que a preservação dos rios está relacionada à conservação da vegetação, à proteção dos animais e à manutenção dos ecossistemas. A mobilização dos estudantes foi uma das etapas de um trabalho que pretende ultrapassar o ambiente escolar.
Rio Ipojuca enfrenta desafios ambientais ao longo de seu percurso
Com aproximadamente 323,9 quilômetros de extensão, o Rio Ipojuca nasce em Arcoverde e percorre diferentes municípios pernambucanos até desaguar no Oceano Atlântico, no município de Ipojuca. Ao longo de seu percurso, o rio está sujeito a diferentes pressões ambientais, entre elas o lançamento de esgoto e o descarte inadequado de resíduos.
A poluição do Ipojuca não se restringe a Gravatá. Por atravessar diferentes municípios, o rio recebe impactos ambientais de diversas origens ao longo de sua bacia hidrográfica. O lançamento de esgoto doméstico e industrial, o descarte irregular de resíduos e outras fontes de contaminação tornam a preservação do curso d’água um desafio que ultrapassa os limites de cada cidade.
Um estudo publicado em 2024 na Revista de Geografia, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), intitulado Identificação das áreas vulneráveis à transferência de poluentes para o rio Ipojuca/PE, analisou a cobertura vegetal das Áreas de Preservação Permanente (APPs) em diferentes trechos da bacia hidrográfica.
De acordo com a pesquisa, Gravatá apresenta 85,19% de cobertura de vegetação densa nas áreas analisadas, resultado que levou o município à classificação de baixa vulnerabilidade à transferência de poluentes. A vegetação nas margens contribui para reduzir a erosão e dificultar o transporte de sedimentos e contaminantes em direção ao leito do rio.
Esse resultado, porém, não significa que a água esteja livre de contaminação. O levantamento avaliou a cobertura vegetal e a vulnerabilidade das margens, não a qualidade da água. A presença de mata ciliar, embora importante para a proteção ambiental, não impede a contaminação provocada pelo lançamento direto de esgoto e outros resíduos nos cursos d’água.
Pesquisas realizadas em Caruaru ajudam a dimensionar outros problemas enfrentados pelo Rio Ipojuca. Uma dissertação de mestrado da UFPE, defendida em 2019, identificou concentrações de ferro, manganês e alumínio acima dos limites de referência utilizados no estudo, além da presença de resíduos de medicamentos, como diclofenaco e ibuprofeno, em amostras coletadas no rio.
Outro estudo, publicado em 2022 no Journal of the Brazilian Chemical Society, identificou sinais de contaminação por esgoto em 90% das amostras de sedimentos analisadas em um trecho urbano do Rio Ipojuca, também em Caruaru.
Os resultados dessas pesquisas se referem ao trecho estudado naquele município e não permitem estabelecer as condições atuais da água em Gravatá. Entretanto, evidenciam que a contaminação do rio é uma questão que precisa ser analisada em escala regional. Os impactos identificados em diferentes municípios reforçam a necessidade de políticas de saneamento, fiscalização e recuperação ambiental que considerem toda a bacia hidrográfica, e não apenas intervenções isoladas.
Projeto prevê continuidade em 2027 e diálogo com a Prefeitura

Embora a mobilização nas ruas tenha marcado o encerramento das atividades previstas para 2026, a proposta é que o projeto tenha continuidade no próximo ano, com a participação de uma nova turma de estudantes.
A iniciativa também prevê o diálogo com a Prefeitura de Gravatá. Organizadores e alunos estão em fase de articulação para apresentar aos gestores municipais as demandas levantadas durante o projeto e os resultados das atividades desenvolvidas ao longo do ano.
A mobilização realizada pelos estudantes amplia a discussão sobre a preservação do Rio Ipojuca para além da sala de aula. Em um problema ambiental que ultrapassa as fronteiras municipais, a conscientização da população, o compromisso do poder público e a cooperação entre as cidades são fundamentais para enfrentar os desafios de conservação do rio.




