Escrever Enquanto Bombardeiam

Alguns meses atrás, estive com escritores venezuelanos. Não era um encontro protocolar. Falávamos como irmãos que sabem que a história do continente é cíclica e cruel. Falávamos de soberania, de dignidade, de como a América Latina sempre paga caro quando resolve existir fora da tutela imperial. Naquele dia, nada parecia urgente. Era conversa, análise, memória compartilhada. Hoje, tudo aquilo virou ferida aberta.

No dia primeiro, por volta das sete da manhã, recebi a informação de que a Venezuela havia sido atacada. Não foi manchete primeiro, foi aviso. Um porto tinha sido atingido. Comecei a mandar mensagens imediatamente. Mensagens simples, desesperadas, humanas. Queria saber se meus amigos estavam vivos, se estavam seguros, se ainda tinham sinal. A angústia mora exatamente aí, no tempo que passa sem resposta.

O ataque ao porto não foi um erro, nem um acidente. Foi aviso. O imperialismo sempre começa assim, testando limites, medindo o silêncio do mundo, observando quem reage e quem finge não ver. Aquele dia foi de espera, de tensão, de impotência. A guerra moderna não precisa que você esteja no território bombardeado para te alcançar. Ela atravessa fronteiras pelo medo.

Hoje, a violência escalou. Bombardeios em Caracas e em outras províncias. Não mais um ponto estratégico isolado, mas o corpo do país inteiro colocado na mira. E junto com as bombas, veio a notícia mais brutal do dia: os relatos de que o presidente Nicolás Maduro e sua esposa teriam sido sequestrados. A guerra já não se limitava ao território. Avançava sobre o símbolo, sobre a soberania encarnada em pessoas.

Quando bombas caem sobre uma capital e um presidente é tratado como espólio de guerra, não há mais discurso possível de ação pontual. É agressão aberta. É terror de Estado. É imperialismo em sua forma mais nua, sem verniz diplomático.

Enquanto lia as notícias, pensei nos rostos daqueles escritores. Pessoas comuns, que escrevem, ensinam, sonham, resistem. O imperialismo não enxerga pessoas. Enxerga territórios, recursos, posições estratégicas. Tudo o que vive ali vira obstáculo. Tudo o que pensa vira ameaça.

O mais violento desses ataques não é só o estrondo das bombas, mas a tentativa de normalização. De nos convencer que isso é necessário, que isso é justo, que isso é pela democracia. Democracia que chega em forma de míssil nunca foi democracia. Sempre foi dominação.

Escrevo porque não aceito o silêncio. Porque sei que calar também é uma forma de consentir. Escrevo porque meus amigos estão do outro lado da fronteira, sob ataque, e a única arma que tenho agora é a palavra. A literatura, mais uma vez, não é refúgio. É trincheira.

O ataque ao porto foi o começo.
Os bombardeios de hoje e o sequestro anunciado são a confirmação.
E o imperialismo, como sempre, tenta nos ensinar pelo medo.
Mas seguimos escrevendo.

E isso, eles nunca conseguem bombardear completamente.

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