O Campeonato Pernambucano 2026 começa nesta sexta-feira (9) sem barulho fora da capital. Pela primeira vez em 30 anos, não há um único clube do Sertão na elite estadual. Não é detalhe estatístico. É sintoma.
Desde 1997, quando o 1º de Maio levou o nome de Petrolina à Primeira Divisão, o Sertão esteve presente de forma contínua no principal campeonato do estado. Foram quase três décadas de viagens longas, folhas salariais enxutas, estádios cheios e enfrentamentos desiguais com os clubes do Recife. Agora, o mapa ficou menor.
Os últimos representantes da região, Afogados e Petrolina, foram rebaixados no Campeonato Pernambucano de 2025. O Decisão, clube originalmente de Goiana, que representou a cidade de Sertânia nas últimas temporadas, voltou à Zona da Mata após mais uma mudança de sede. Resultado: o Sertão, pela primeira vez desde 1996, ficou fora da Série A.
Convém lembrar: o Sertão não é qualquer interior. É a única região fora da Região Metropolitana do Recife a produzir um campeão estadual. O feito histórico pertence ao Salgueiro Atlético Clube, campeão pernambucano em 2020, quebrando uma hegemonia centenária dos clubes da capital.
O Carcará disputou a Primeira Divisão em 17 edições, estreando em 2006e permanecendo de forma praticamente ininterrupta até 2023. Entre 2011 e 2020, esteve dez vezes seguidas entre os quatro melhores, foi vice-campeão em 2015 e 2017 e campeão em 2020. Mesmo assim, em 2024, optou por não disputar o estadual, alegando dificuldades financeiras. Futebol houve. Dinheiro, não.
O problema nunca foi técnico. Sempre foi geográfico, político e econômico. Jogar o Pernambucano a mais de 700 quilômetros da capital custa caro. Viajar custa. Manter elenco custa. Arbitragem custa. E o retorno quase nunca vem. Os patrocinadores ficam no Recife. As cotas também. O interior que se vire.
Os clubes sertanejos sobrevivem, quando sobrevivem, com apoio municipal. Apoio instável, dependente de gestão, humor político e orçamento. Quando a prefeitura aperta o cinto, o futebol costuma ser o primeiro a sufocar.
O Afogados, presente na elite de 2017 a 2025, viveu seus melhores momentos em 2019 e 2020, quando chegou às semifinais e garantiu vaga na Copa do Brasil de 2020, competição em que eliminou o Atlético-MG, um dos maiores feitos de um clube do interior pernambucano no torneio.
O Petrolina, por sua vez, disputou a Série A em 13 oportunidades. Seu melhor resultado veio em 2023, quando terminou na terceira colocação, eliminou o Santa Cruz e ficou fora da Série D apenas pelos critérios do regulamento. Dois anos depois, estava rebaixado.
O Pernambucano 2026 terá Sport, Santa Cruz, Náutico, Retrô, Maguary, Jaguar, Vitória e o Decisão. Bons clubes. Bons jogos. Mas um campeonato menos representativo de um estado que não cabe apenas na capital e na Zona da Mata.
Sem o Sertão, o Pernambucano perde diversidade, perde alcance, perde identidade. Fica mais confortável. Talvez mais barato. Mas também mais pobre. E isso não é acaso. É consequência. Ou, no mínimo, descaso.




