Há algo de profundamente suspeito em quem responde “correria” quando perguntamos como anda a vida. Não é um diagnóstico médico, nem um estado emocional, é um atestado moral. Estar ocupado, hoje, não é apenas uma condição: é um currículo ambulante. Se você não está exausto, atrasado e com 37 abas abertas no navegador, algo está errado com você. Provavelmente falta ambição. Ou caráter.
Vivemos a era da produtividade performática. Não basta produzir, é preciso parecer produtivo. Trabalhar em silêncio, com foco e resultados concretos, soa quase subversivo. O importante mesmo é enviar e-mails às 23h47, participar de reuniões que poderiam ser um parágrafo e ostentar olheiras como se fossem medalhas de honra. Dormir bem? Um luxo burguês. Pensar antes de agir? Tempo desperdiçado.
A agenda lotada virou símbolo de importância. Quanto menos espaço, mais valor. Se você tem tempo livre, a suspeita surge imediatamente: “Mas o que essa pessoa faz da vida?”. A resposta correta nunca é “penso”, “leio” ou “respiro”. Essas atividades não geram relatórios, gráficos ou stories no Instagram. Logo, não contam.

Curiosamente, essa devoção ao estar ocupado raramente anda de mãos dadas com eficiência. Produz-se muito barulho e pouco sentido. Confunde-se urgência com relevância, movimento com progresso. Corremos o dia inteiro para chegar ao fim dele com a estranha sensação de que nada essencial foi feito, mas tudo foi exaustivamente documentado.
Há também um prazer quase religioso no cansaço. Reclamar da falta de tempo virou uma forma socialmente aceita de autoelogio. “Não paro nunca” substituiu o antigo “estou bem”. É como se o descanso fosse um vício vergonhoso e a pausa, um pecado capital. Afinal, se você parar, corre o risco de perceber que nem tudo precisa ser feito agora, ou por você.
Some-se a isso o fetiche por ferramentas. Aplicativos, métodos, siglas e planilhas prometem salvar o tempo que jamais tivemos. Organiza-se o caos sem jamais questionar por que ele existe. A ilusão de controle conforta mais do que a decisão de cortar excessos. É mais fácil baixar um novo app do que admitir que estamos ocupados demais com coisas irrelevantes.
A falsa produtividade também adora confundir disponibilidade com comprometimento. Quem responde na hora é dedicado; quem demora, desinteressado. Não importa se a resposta imediata é vazia, mal pensada ou inútil — o importante é marcar presença. Pensar com calma, revisar idéias e escolher o silêncio, hoje, soa quase como rebeldia passiva.
Talvez o maior truque dessa lógica seja nos convencer de que valor pessoal se mede em tarefas concluídas. Que somos a soma das horas trabalhadas, não das ideias amadurecidas. Que viver é produzir, e produzir é existir. Um raciocínio elegante, embora perigosamente conveniente para quem lucra com nossa exaustão e nossa pressa.
No fundo, a ocupação constante funciona como anestesia. Enquanto estamos correndo, não precisamos encarar perguntas incômodas: “Isso faz sentido?”, “Para quem eu faço tudo isso?”, “O que sobra quando o trabalho acaba?”. Estar ocupado o tempo todo é uma forma eficaz de fugir de si mesmo.
No fim das contas, estar ocupado não é prova de importância, muitas vezes é só prova de desorganização, medo do silêncio ou incapacidade de dizer “não”. A verdadeira produtividade, aquela discreta e eficaz, raramente faz alarde. Ela não grita, não posta, não se gaba. Ela simplesmente acontece. Mas isso, claro, dá menos curtidas.




