A palavra “uberização” tem ganhado novos contornos além do transporte por aplicativo. O termo, que designa a precarização de relações trabalhistas sob um verniz de autonomia, agora invade outros campos, inclusive a literatura. Em um cenário onde redes sociais, plataformas digitais e algoritmos definem o que deve ser lido e dá preferência sob o que deve ser escrito, muitos autores se veem transformados em fornecedores de conteúdo sob demanda, cada vez mais distantes da figura romântica do escritor como artista e pensador.
Escrever para Alimentar a Máquina
A lógica da uberização pressupõe velocidade, produtividade e visibilidade instantânea. No campo literário, isso se manifesta na pressão por escrever rápido, publicar com frequência, agradar ao público e adaptar-se a plataformas como Wattpad, Amazon KDP, Medium ou redes como TikTok, Youtube e Instagram. O escritor que já passa por diversos percalços para fazer suas escritas, agora, deixa de ser apenas autor e passa a desempenhar o papel de “influencer”, empreendedor de si mesmo. Publicar um livro já não basta; agora, é preciso viralizar, para ser considerado bom.
“A literatura foi capturada por uma lógica de likes, rankings e métricas”, – Ana Costa, doutora em Teoria Literária.
Autoria Independente
É inegável que autores ganham espaço, é verdade. Mas a que custo? Os que de fato perseveram relatam jornadas exaustivas de autopromoção, revisão, capa, marketing e relacionamento com leitores. Tudo isso sem garantia de retorno financeiro. A escrita, antes movida por reflexão e tempo, se molda à expectativa de um público que consome rápido e esquece mais rápido ainda.
Em vez de contratos editoriais sólidos, muitos escritores trabalham sob o modelo de remuneração por página lida (como no Kindle Unlimited), que incentiva textos longos, em série, com enredos fáceis e ganchos constantes, em detrimento da complexidade literária.
O lucro para quem não fez o esforço
As grandes plataformas digitais concentram e monopoliza o lucro. Amazon, Google e outras recebem a maior fatia da monetização sobre as obras “auto publicadas”. O autor, enquanto seu aparente “parceiro”, muitas vezes recebe centavos por página lida ou porcentagens irrisórias se contentando com o pouco em troca de ter sua obra publicada. Assim como o motorista dos aplicativos, o escritor uberizado é essencial ao serviço, mas simplesmente descartável.
Nesse ambiente, o algoritmo assume o papel que antes cabia ao editor, ao crítico e ao tempo. Ele decide quem será lido, por quanto tempo e com que frequência, guiado não pela qualidade estética ou densidade reflexiva, mas pelo engajamento mensurável. O que não performa é rapidamente soterrado pelo fluxo incessante de novidades. Assim, obras que exigem leitura lenta, silêncio e maturação tornam-se incompatíveis com um sistema que valoriza a reação imediata e o consumo acelerado.
A consequência é a erosão do próprio sentido de literatura como espaço de resistência, experimentação e pensamento crítico. Quando escrever se torna uma corrida contra a obsolescência digital, o risco não é apenas a precarização do trabalho do escritor, mas o empobrecimento do imaginário coletivo. A literatura, reduzida a produto escalável, perde sua capacidade de interromper o mundo e passa apenas a alimentá-lo.
A Resistência
Apesar de parecer um caso perdido, a literatura, assim como todas as formas de arte reagem a essa lógica de precarização. Com a inserção de coletivos de autores promovem feiras independentes, selos editoriais cooperativos, clubes de leitura e campanhas de financiamento coletivo. A valorização do tempo de criação e da complexidade artística ainda pulsa, mesmo que fora dos stories de Instagram.
“Escrever continua sendo um ato de resistência”, diz o escritor e editor Paulo Mendes. E eu reitero: Agora mais que nunca!





