Das gravuras nas cavernas às palavras talhadas na pedra, da prensa de Gutenberg às impressoras domésticas, a literatura sempre caminhou junto às transformações sociais. Ler e escrever nunca foram apenas atos individuais, mas práticas atravessadas por poder, acesso e disputa simbólica. A forma de circulação do texto muda conforme muda a sociedade , e hoje, com a internet 2.0, basta um deslizar de dedo para descobrir, consumir e descartar um livro.
Esse novo cenário ampliou o acesso, mas também aprofundou contradições. A publicação literária passou por uma espécie de uberização das palavras: publica-se muito, comenta-se tudo, recomenda-se rápido , quase sempre sem tempo para reflexão. Não se trata de negar o direito à leitura popular ou ao entretenimento, mas de questionar quem define o que vale ser lido e como esse valor é construído.
Influencers literários: mediação ou mercadoria?
Nos últimos anos, influencers literários assumiram o papel de mediadores entre livros e leitores. No BookTok, nicho literário do TikTok, vídeos curtos, reações emocionais e listas de clichês narrativos (os chamados tropes) passaram a ditar tendências editoriais e impulsionar vendas.
Há um aspecto positivo: em um país onde ler ainda é privilégio de poucos, a popularização da leitura entre jovens não pode ser ignorada. O problema surge quando essa mediação deixa de estimular pensamento crítico e passa a operar como publicidade disfarçada, guiada por algoritmos, parcerias comerciais e métricas de engajamento.
O livro deixa de ser espaço de conflito, linguagem e ideia , vira produto rápido, embalagem estética, cenário para vídeo. A leitura se transforma em performance social: mostrar que se lê, não necessariamente compreender o que se lê.
O anti-intelectualismo como projeto cultural
Nesse ambiente, cresce um fenômeno conhecido como anti-intelectualismo , a rejeição à complexidade, à análise crítica e ao conhecimento aprofundado. Não como ignorância individual, mas como lógica estrutural.
Livros longos, linguagem elaborada e narrativas densas passam a ser tratados como “difíceis demais”, “arrastados” ou “chatos”. Clássicos são descartados em vídeos de 15 segundos, julgados fora de contexto histórico e social. Pensar vira sinônimo de elitismo; refletir, de perda de tempo.
Esse movimento interessa ao mercado: leitores menos críticos consomem mais rápido, questionam menos e seguem tendências com maior facilidade. O algoritmo recompensa emoção imediata , não reflexão , e, assim, molda o gosto, o catálogo das editoras e até o modo como escritores passam a produzir.
Dark romance: choque, fetiche e lucro
O sucesso do dark romance ajuda a entender essa engrenagem. Popularizado nas redes, o gênero explora violência, obsessão, abuso e relações de poder extremas. Defendido por alguns como fantasia controlada, também é criticado pela romantização de comportamentos abusivos, sobretudo quando consumido por um público jovem.
Influencers literários desempenham papel central nesse processo, muitas vezes promovendo obras sem contextualização crítica, sem avisos de gatilho e sem debate sobre consentimento ou violência simbólica. O choque vende. O desconforto crítico, não.
Não se trata de censura ou moralismo, mas de responsabilidade cultural. Toda obra circula em uma sociedade concreta, marcada por desigualdades de gênero, classe e poder. Fingir que isso não importa é, também, uma escolha política.
Algoritmo, mercado e padronização da leitura
O algoritmo das plataformas digitais não é neutro. Ele privilegia conteúdos que geram resposta rápida: choro, raiva, excitação, identificação imediata. Editoras e autores sentem essa pressão e passam a produzir livros mais curtos, previsíveis e facilmente vendáveis.
O resultado é a homogeneização da literatura e o esvaziamento do livro como ferramenta de transformação social. A leitura deixa de formar consciência e passa a apenas ocupar tempo.
Ler como ato de resistência
Criticar esse cenário não é atacar leitores, especialmente jovens. Para muitos, as redes sociais são a porta de entrada para a literatura. O problema começa quando a superficialidade deixa de ser etapa inicial e vira norma cultural, ridicularizando o esforço intelectual e desvalorizando o pensamento crítico.
Ler com profundidade, questionar narrativas prontas e sair da bolha do algoritmo tornam-se, hoje, gestos políticos. Defender a literatura como espaço de conflito, fricção e consciência é defender o direito de pensar.
Em tempos de consumo rápido e mentes anestesiadas, ler com atenção é um ato de resistência.




