{"id":668,"date":"2026-03-10T18:38:12","date_gmt":"2026-03-10T21:38:12","guid":{"rendered":"https:\/\/avozdasruas.com.br\/portal\/?p=668"},"modified":"2026-03-10T18:38:31","modified_gmt":"2026-03-10T21:38:31","slug":"quem-define-o-inimigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avozdasruas.com.br\/portal\/index.php\/2026\/03\/10\/quem-define-o-inimigo\/","title":{"rendered":"Quem define o inimigo?"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 dif\u00edcil entender a geopol\u00edtica. Principalmente quando a narrativa j\u00e1 vem pronta, com vil\u00f5es definidos e urg\u00eancia moral embalada para consumo imediato. A m\u00eddia marca um alvo. O debate se estreita. A escolha parece simples.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas raramente \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Israel anuncia ataques \u201cpreventivos\u201d contra o Ir\u00e3 e os Estados Unidos falam em \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d, o mundo \u00e9 empurrado para uma divis\u00e3o bin\u00e1ria: seguran\u00e7a ou amea\u00e7a. Defesa ou terrorismo. Democracia ou caos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pressa \u00e9 estrat\u00e9gica.<br>Quem define o enquadramento define a moral da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ir\u00e3 \u00e9 descrito como risco iminente, patrocinador do extremismo, amea\u00e7a nuclear. E h\u00e1 cr\u00edticas reais ao regime: repress\u00e3o pol\u00edtica, restri\u00e7\u00f5es a liberdades civis, desigualdades internas. Nada disso \u00e9 irrelevante.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a pergunta n\u00e3o \u00e9 se o governo iraniano \u00e9 virtuoso.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta \u00e9: por que alguns erros viram justificativa para bombardeios, enquanto outros recebem notas diplom\u00e1ticas?<\/p>\n\n\n\n<p>Repress\u00e3o? Os Estados Unidos j\u00e1 prenderam milhares de pessoas em protestos contra guerras e pol\u00edticas externas.<br>Casamento infantil? Ainda h\u00e1 brechas legais em estados americanos.<br>Produ\u00e7\u00e3o de armas? Washington mant\u00e9m centenas de bases militares espalhadas pelo planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando aliados erram, o tom \u00e9 cauteloso. Quando advers\u00e1rios erram, o tom \u00e9 urgente.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria geopol\u00edtica \u00e9 seletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A rivalidade entre EUA e Ir\u00e3 n\u00e3o come\u00e7ou com o enriquecimento de ur\u00e2nio. Em 1953, um golpe apoiado por Washington ajudou a derrubar o primeiro-ministro iraniano ap\u00f3s a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. D\u00e9cadas depois, a Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica consolidou o rompimento. San\u00e7\u00f5es, embargos e confrontos indiretos tornaram-se permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso aparece nas manchetes apressadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ataques atuais n\u00e3o surgem no vazio. Eles fazem parte de uma disputa maior por influ\u00eancia regional. O Golfo P\u00e9rsico n\u00e3o \u00e9 apenas um ponto estrat\u00e9gico \u2014 \u00e9 uma das principais art\u00e9rias energ\u00e9ticas do mundo. Controlar sua estabilidade \u00e9 influenciar mercados, alian\u00e7as e equil\u00edbrios militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Fala-se em seguran\u00e7a internacional. Fala-se pouco em mercado internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O pre\u00e7o do petr\u00f3leo reage antes da poeira baixar. Bolsas oscilam com cada explos\u00e3o. Empresas do setor b\u00e9lico registram valoriza\u00e7\u00e3o. A guerra, para alguns, \u00e9 trag\u00e9dia; para outros, oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E, sim, petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ouro negro continua sendo eixo silencioso da pol\u00edtica global. Controlar sua produ\u00e7\u00e3o, suas rotas e suas alian\u00e7as significa controlar parte significativa do poder mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Israel enxerga no fortalecimento regional iraniano uma amea\u00e7a direta \u00e0 sua sobreviv\u00eancia estrat\u00e9gica. Os Estados Unidos entram como fiadores dessa conten\u00e7\u00e3o, projetando poder militar e impondo san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. A l\u00f3gica \u00e9 impedir que o advers\u00e1rio altere o equil\u00edbrio de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas equil\u00edbrio para quem?<\/p>\n\n\n\n<p>Quem paga o pre\u00e7o raramente aparece nos comunicados oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o trabalhadores que enfrentam infla\u00e7\u00e3o ap\u00f3s bloqueios econ\u00f4micos.<br>S\u00e3o jovens recrutados para defender bandeiras que n\u00e3o desenharam.<br>S\u00e3o fam\u00edlias que vivem sob o medo de que uma escalada vire guerra aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>A geopol\u00edtica costuma ser descrita como xadrez.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o tabuleiro \u00e9 humano.<br>E as pe\u00e7as sangram.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, o debate raramente televisionado \u00e9 sobre hegemonia. Quem define as regras do sistema internacional? Quem pode impor san\u00e7\u00f5es unilaterais? Quem pode bombardear alegando preven\u00e7\u00e3o? Quando um pa\u00eds desenvolve tecnologia militar, chama-se defesa. Quando outro desenvolve, chama-se amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo n\u00e3o se divide apenas entre democracias e autocracias. Divide-se entre interesses, estrat\u00e9gicos, militares e energ\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entender a geopol\u00edtica \u00e9 desconfiar das certezas r\u00e1pidas. \u00c9 perceber que, por tr\u00e1s de cada m\u00edssil lan\u00e7ado, h\u00e1 contratos assinados; por tr\u00e1s de cada discurso moral, h\u00e1 c\u00e1lculos de poder; e por tr\u00e1s de cada conflito, h\u00e1 popula\u00e7\u00f5es que nunca votaram pela guerra que agora molda seus destinos.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, talvez a pergunta n\u00e3o seja se o inimigo \u00e9 perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a pergunta seja outra:<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tem o poder de decidir quem ser\u00e1 chamado de inimigo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil entender a geopol\u00edtica. 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