Estudantes cobram transporte universitário em audiência pública na Câmara de Gravatá

Juventude gravataense transforma dificuldade em mobilização coletiva por direito garantido em lei desde 2009

Entre mensalidades, alimentação, longas viagens diárias e custos que chegam a ultrapassar R$ 700 por mês, estudantes universitários de Gravatá transformaram a dificuldade em mobilização social. Na noite da última segunda-feira (19), universitários, familiares, vereadores e representantes da sociedade civil ocuparam o plenário da Câmara Municipal de Gravatá para cobrar o cumprimento da lei municipal que prevê auxílio ao transporte universitário.

A audiência pública reuniu relatos emocionados sobre a rotina enfrentada por jovens que precisam se deslocar diariamente para cidades como Caruaru, Vitória de Santo Antão, Recife e Garanhuns em busca do ensino superior.

A principal reivindicação dos estudantes é o cumprimento da legislação criada em 2009, que prevê subsídio para o transporte universitário no município. Durante toda a audiência, uma frase foi repetida diversas vezes pelos participantes: “não é favor, é direito”.

O peso do transporte no sonho universitário

A falta de uma política pública estruturada para o transporte universitário impacta diretamente a permanência dos estudantes no ensino superior. Muitos relataram dificuldades financeiras severas, jornadas exaustivas e até desistências acadêmicas.

Um dos líderes da mobilização, o estudante Raí, destacou que a ausência do transporte acaba obrigando famílias inteiras a se sacrificarem financeiramente para manter os filhos na universidade.

“Muitos estudantes têm aulas em horários que impossibilitam trabalhar, então o custo acaba recaindo sobre nossas famílias. Nossos pais precisam se sacrificar financeiramente para que a gente consiga chegar à faculdade e realizar um sonho pelo qual lutamos tanto”, afirmou.

A estudante Camila, também uma das organizadoras do movimento, relatou que atualmente só consegue permanecer na universidade graças à ajuda de pessoas próximas.

“Minha mãe recebe apenas R$ 500 de benefício. E praticamente esse valor inteiro acaba sendo utilizado para pagar transporte universitário todos os meses”, disse durante a audiência.

Ela afirmou ainda que o debate ultrapassa a questão financeira.

“Isso não é um favor que estamos pedindo. O transporte universitário é um direito dos estudantes. O que queremos é uma resposta e o cumprimento da lei.”

Custos chegam a R$ 700 por mês

Os relatos apresentados durante a audiência expuseram uma realidade de desgaste físico, emocional e financeiro.

A estudante Maria Luíza, universitária de Engenharia Civil em Caruaru, afirmou gastar aproximadamente R$ 700 mensais apenas com transporte.

“Nas segundas e quintas-feiras eu passo o dia na universidade e no estágio. Depois ainda preciso pagar transporte separado para voltar à noite. Somando tudo, gasto cerca de R$ 700 por mês apenas com deslocamento”, explicou.

Ela também comparou a situação de Gravatá com cidades menores da região.

“É vergonhoso ver estudantes de municípios menores tendo ônibus universitário garantido pelas prefeituras enquanto nós precisamos nos sacrificar para estudar.”

Já o estudante Victor chamou atenção para o impacto dos altos valores especialmente entre alunos de cursos integrais.

“Quem estuda pela manhã muitas vezes não consegue trabalhar para ajudar nas despesas. Em alguns casos, o transporte consumia praticamente toda a bolsa estudantil da faculdade.”

Victor também denunciou situações de monopólio no transporte universitário em determinados horários.

“Durante a manhã praticamente existia uma única empresa fazendo o trajeto. Sem concorrência, o preço chegava a ultrapassar R$ 500.”

“A própria cidade acaba afastando seus jovens”

Outro relato que marcou a audiência foi o da estudante Milena, que precisou abandonar o curso de Engenharia na UFPE Recife por dificuldades financeiras.

Ela contou que chegou a morar na capital pernambucana, mas precisou retornar para Gravatá devido aos custos. Mesmo estudando atualmente em Caruaru, continua enfrentando dificuldades com o transporte.

“Às vezes, a diferença entre morar em Recife e estudar em Caruaru não é tão grande quanto parece. Hoje pago cerca de R$ 370 na van universitária e ainda existe risco constante de aumento.”

Milena também criticou a ausência de representantes da Prefeitura na audiência pública.

“Nós somos estudantes, mas também somos eleitores. E naturalmente vamos lembrar quem esteve presente nessa discussão e quem ignorou a juventude da cidade.”

Maria Luíza também revelou já ter pensado em deixar Gravatá para morar em Caruaru.

“Eu amo Gravatá. Minha família está aqui. Mas chega um momento em que a própria cidade acaba afastando seus jovens.”

Acessibilidade também entrou em debate

Durante a audiência, um estudante representou a irmã cadeirante, que não conseguiu comparecer ao plenário.

Segundo o relato, a estudante universitária enfrenta cobrança adicional no transporte por utilizar cadeira de rodas.

“Acessibilidade não pode ser tratada como custo extra para o estudante. Isso precisa ser debatido e denunciado”, afirmou.

A fala gerou forte repercussão entre os presentes e ampliou o debate sobre a falta de estrutura adequada para estudantes com deficiência.

Vereadores cobram cumprimento da lei

Parlamentares presentes afirmaram que a legislação municipal já garante o transporte universitário e criticaram a ausência da Prefeitura na audiência.

O vereador Rafael Prequé afirmou que protocolou requerimentos, indicações e uma denúncia formal junto ao Ministério Público cobrando o cumprimento da lei do transporte universitário.

Segundo o parlamentar, o documento solicita investigação sobre o descumprimento da legislação municipal que garante o subsídio ao transporte dos estudantes.

“Protocolei denúncia no Ministério Público para que essa lei seja cumprida. O transporte universitário gratuito já deveria ter sido implantado há muitos anos”, declarou durante a audiência.

“Não estou aqui para defender gestão. Estou aqui para defender o povo. O transporte universitário já é um direito garantido por legislação municipal”, declarou.

Ele também classificou como “falta de respeito” a ausência de representantes do Executivo.

“Isso demonstra desrespeito não apenas com os estudantes, mas também com a democracia.”

A vereadora Maria Vilar afirmou que recursos existem para implantação do transporte.

“Isso não deve ser tratado como gasto público, mas como investimento.”

Ela também defendeu que motoristas de vans sejam incluídos em possíveis soluções construídas pelo município.

O vereador Aldo da Lamassa relembrou que a lei foi criada ainda em 2009 e criticou a falta de continuidade das gestões municipais.

“Lei é para ser cumprida. Recursos existem. O problema é prioridade.”

“O município perde talentos”

Um dos discursos mais repercutidos da audiência foi o do advogado Luiz Maranhão, que ofereceu apoio jurídico gratuito aos estudantes.

Ele afirmou que a ausência do transporte universitário gera evasão estudantil e fuga de talentos da cidade.

“Quando um estudante abandona a faculdade por não conseguir pagar transporte, o município perde futuros médicos, engenheiros, professores, advogados e tantos outros profissionais.”

O advogado também comparou os investimentos realizados em grandes eventos com a ausência de políticas para os estudantes.

“Hoje Gravatá consegue investir mais de R$ 1 milhão em um único show, mas não consegue garantir transporte universitário para centenas de jovens.”

Segundo Luiz Maranhão, o problema histórico da pauta não se limita à atual gestão.

“Essa nunca foi prioridade de nenhuma administração municipal.”

Mobilização deve continuar

Após a audiência, os estudantes afirmaram que pretendem continuar organizados e cobrando soluções concretas.

Em entrevista exclusiva, Camila afirmou que o movimento ganhou força a partir da troca de experiências entre universitários que enfrentavam os mesmos problemas diariamente.

“Quando começamos a conversar percebemos que existiam várias pessoas vivendo a mesma situação. Foi daí que nasceu a mobilização.”

Ela também afirmou que a audiência pública representa apenas o começo da luta.

“A gente não quer que isso vire apenas mais uma discussão esquecida depois de alguns dias. Vamos continuar cobrando até que essa lei saia do papel.”

Debate envolve mais do que transporte

A audiência pública realizada na Câmara Municipal evidenciou que o debate sobre transporte universitário em Gravatá ultrapassa a questão da mobilidade.

Os relatos apresentados pelos estudantes mostram uma discussão diretamente ligada ao acesso à educação, permanência universitária, desigualdade social e futuro da juventude gravataense.

Enquanto estudantes seguem enfrentando jornadas exaustivas, altos custos e dificuldades para permanecer na universidade, o movimento criado em torno da pauta demonstra que a juventude local decidiu transformar indignação em organização coletiva.

Para muitos dos presentes, a luta pelo transporte universitário representa também a luta pelo direito de continuar sonhando.


Entrevista exclusiva — Camila, uma das lideranças do movimento

Como surgiu o movimento dos estudantes pelo transporte universitário?

“O movimento surgiu da necessidade real que nós, estudantes, enfrentamos todos os dias. A maioria das pessoas acha que o maior custo da faculdade é apenas a mensalidade, mas não é. O transporte pesa muito. Tem estudante pagando R$ 300, R$ 400, R$ 500 por mês só para conseguir chegar na universidade. Então começamos a conversar entre nós, compartilhar nossas dificuldades e perceber que o problema era coletivo.”

Você esperava que a mobilização ganhasse tanta força?

“Sinceramente, não. Quando vimos a Câmara cheia de estudantes, pais e responsáveis, percebemos que essa pauta é muito maior do que parecia.”

Qual é hoje a principal dificuldade enfrentada pelos universitários de Gravatá?

“Sem dúvidas, o custo do transporte. Tem gente que sai de casa de madrugada e volta quase meia-noite todos os dias.”

Há estudantes desistindo da faculdade?

“Infelizmente, sim. Conhecemos muitos casos de estudantes que atrasaram o curso, trocaram de universidade, mudaram de cidade ou simplesmente desistiram porque não conseguiam mais pagar os custos.”

Como vocês avaliam a ausência de representantes da Prefeitura?

“Foi decepcionante. Afinal, estamos falando de um direito previsto em lei desde 2009.”

O movimento vai continuar?

“Com certeza. A audiência foi apenas o começo.”

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *