A festa é global, mas o porteiro escolhe quem entra

Casos de interrogatórios, deportações e recusas de entrada levantam questionamentos sobre a capacidade dos Estados Unidos de receber uma Copa que se apresenta como um evento para todos os povos

Aymen Hussein desembarcou nos Estados Unidos como herói nacional. Autor do gol que classificou o Iraque para uma Copa do Mundo após quarenta anos de ausência, o atacante esperava iniciar a preparação para o maior torneio de futebol do planeta. Em vez disso, passou sete horas sob interrogatório da imigração norte-americana antes de ser liberado.

Aymen Hussein

O episódio não foi isolado.

Nos dias que antecedem a abertura da Copa do Mundo de 2026, uma série de incidentes envolvendo profissionais ligados ao torneio vem chamando atenção. O fotógrafo da federação iraquiana, Talal Salah, foi detido por treze horas e teve sua entrada negada, sendo deportado para Bagdá. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, integrante do quadro da FIFA e eleito melhor árbitro africano de 2025, também foi barrado pelas autoridades migratórias americanas e ficou fora da competição.

Ao mesmo tempo, a Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) denunciou dificuldades enfrentadas por jornalistas de países africanos e do Irã para obter vistos de entrada. Em alguns casos, profissionais receberam vistos de entrada única, o que pode impedir o retorno aos Estados Unidos caso acompanhem partidas realizadas no Canadá ou no México.

Os acontecimentos colocam em evidência uma questão que acompanha a organização do Mundial desde a confirmação dos Estados Unidos como principal sede do torneio: até que ponto as políticas migratórias do país podem interferir na realização de um evento que reúne representantes de quase todas as regiões do planeta?

A FIFA tem afirmado que decisões relacionadas à concessão de vistos e autorizações de entrada pertencem exclusivamente aos governos nacionais. Em nota sobre o caso do árbitro somali, a entidade reforçou que não possui autoridade sobre processos migratórios.

A posição, porém, vem sendo alvo de críticas.

Para entidades de imprensa e defensores dos direitos humanos, os episódios recentes revelam uma contradição entre o discurso de integração promovido pela Copa do Mundo e as dificuldades enfrentadas por profissionais credenciados para participar do torneio.

A discussão ganha peso porque a Copa sempre foi apresentada como mais do que um campeonato de futebol. Desde sua criação, o torneio se consolidou como um espaço de encontro entre culturas, idiomas e nacionalidades distintas.

Em 2026, entretanto, a imagem que antecede muitos jogos não é apenas a dos estádios lotados ou das seleções chegando para a disputa. É também a de profissionais detidos em aeroportos, jornalistas aguardando vistos e participantes tentando explicar às autoridades migratórias por que estão ali.

A bola ainda nem começou a rolar. Mas, para alguns dos envolvidos na Copa do Mundo, o primeiro desafio já aconteceu muito antes do apito inicial.

Foi na fila da imigração.

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